Marcos Antônio Fernandes, de 58 anos, transformou a própria casa em uma galeria a céu aberto com corujas, araras, onças-pintadas e até espada-de-são-jorge. O sonho demorou 8 anos para ser finalizado e é o orgulho do bairro Jardim Panorama, em Campo Grande. Quando a comunidade era só barraco, ele e os vizinhos sonhavam em construir muros de alvenaria e colorir com animais do Pantanal.
Tudo foi construído aos poucos, tijolo por tijolo. Quando o muro finalmente veio, Marcos não colocou nele só os pássaros que já coloriam as paredes internas. Ele levou para fora o bioma pantaneiro para que a rua também pudesse ver aquilo que nasceu dentro de casa. Morador da Rua Tibaji, Marcos é presidente do bairro desde 2011. Ele trabalhou com ferragem e hoje atua como pintor.
A responsável pelos murais é a artista e vizinha Grazieli de Souza Romero, de 35 anos, conhecida como Grazi Romero. Enquanto Marcos dava ideias e acompanhava o processo, ela transformava as lembranças em desenho. “Isso começou a partir de um sonho de dar uma repaginada na comunidade e trazer a arte. A nossa vizinha Grazi fez. O passarinho veio porque eu gosto e crio canários-belgas. A primeira pintura que fizemos foi uma ave”, conta Marcos.
As pinturas não são aleatórias. Cada uma tem motivo, memória ou afeto. As corujas lembram a praça conquistada pela comunidade. Os canários remetem à criação de Marcos. As araras aparecem porque, segundo ele, estão sempre por perto, por causa de um pé de coco na casa. Há também um sabiá com a patinha quebrada, inspirado em um pássaro que ele acolheu em uma caixa de sapato e depois soltou.
O muro externo demorou a acontecer por causa da rotina de trabalho de ambos. A pintura foi feita sem pressa. “No muro eu quis trazer o Pantanal. A gente queria colocar isso lá fora para o povo ver. Era um sonho que se realizou. As onças entraram no muro por causa do Pantanal”, diz Marcos. Além do mamífero, há uma coruja gigante, um pé de espada-de-são-jorge e outra arara vermelha.
Para Grazi, a pintura do muro também faz parte da história da comunidade. Ela conta que, quando chegou ao Jardim Panorama, ainda adolescente, muitos moradores viviam em barracos. O sonho de ter paredes para pintar se misturava ao sonho de ter uma casa melhor. “Todo mundo morava em barraco. O sonho era fazer as paredes. Meus vizinhos foram meus maiores incentivadores para aprender a pintar”, relata Grazi.
A artista lembra que a casa de Marcos foi ponto de convivência. Crianças se aproximavam para ver os desenhos e comer alguma coisa. Enquanto Grazi pintava, vizinhos ajudavam como podiam. Uns levavam tinta, outros comida. “Eles vinham aqui, minhas filhas também. As crianças sentavam perto e ficavam vendo eu fazer desenho. Uma vizinha trazia pão do restaurante que ela trabalhava”, conta.
O primeiro desenho feito por Grazi na casa foi na parte interna, perto da cozinha. A partir dele, a ideia cresceu. O que começou com uma ave virou uma sequência de pinturas que hoje ocupa paredes, varanda e muro. “Demorou uns oito anos para fazer tudo. Quando comecei, eu já trabalhava com pintura havia alguns anos. Viver de arte era e ainda é muito difícil”, afirma Grazi. Ela não fez curso nem faculdade de artes. Aprendeu na prática, observando e tentando. Hoje, além dos trabalhos artísticos, também atua como pintora residencial.
