As exportações de carne bovina de Mato Grosso do Sul para a China cresceram 57,45% de janeiro a abril deste ano, em comparação com o mesmo período de 2025. Os dados são do economista Daniel Massen Frainer, professor da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), com base em estatísticas do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).
O estado embarcou 41.642.061 quilos de carne bovina para o mercado chinês nos primeiros quatro meses do ano, contra 26.448.106 quilos no primeiro quadrimestre de 2025. A receita quase dobrou, passando de US$ 130,602 milhões para US$ 250,574 milhões. O crescimento estadual foi quase o triplo da média nacional, que foi de 19% no período.
Segundo Frainer, o resultado reflete um ganho de mercado na China e não uma antecipação de contratos por causa do fim da cota de importação. A cota chinesa, de 1,1 milhão de toneladas anuais com tarifa de 12%, está em vigor desde janeiro. Especialistas preveem que o limite será atingido em junho. Depois disso, o excedente será taxado em 55%. A medida deve valer até dezembro de 2028. O volume permitido é cerca de 600 mil toneladas menor do que os embarques de 2025, quando a China comprou aproximadamente 1,7 milhão de toneladas de carne bovina brasileira.
Os embarques totais de Mato Grosso do Sul, liderados pela China, somaram US$ 3,61 bilhões até abril. O valor é 6,26% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior, de US$ 3,40 bilhões, conforme dados da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação).
O economista avalia que os pecuaristas do estado devem sentir os efeitos das cotas a partir do segundo semestre. Ele acredita que os embarques podem continuar altos, superando as projeções iniciais. Uma alternativa para os produtores seria redirecionar as vendas para os Estados Unidos, onde não há barreiras atuais para a carne brasileira, ao contrário de 2025, quando o governo Trump aplicou tarifas.
Frainer explica que a tarifa chinesa não incide sobre o produto vendido, mas sobre quem compra no mercado chinês. Para os exportadores, que trabalham com o preço FOB (free on board), os custos são do comprador. “No fim das contas, eles acabam criando um custo maior para eles mesmos”, afirmou. Para ele, a cota é uma tentativa de restringir as compras, mas não significa uma redução efetiva. “Quem quiser comprar na China poderá continuar comprando, só que pagando mais caro.”
Os frigoríficos já trabalham para se adaptar. A JBS, maior empresa do setor, tem foco no mercado internacional e deve ser mais impactada. Grupos menores, voltados ao mercado interno, tendem a ser pouco prejudicados. A JBS não quis comentar o assunto. O governo brasileiro busca reverter a cota chinesa. O ministro do MDIC, Márcio Elias Rosa, disse que o governo quer um acordo com Pequim para discutir o teto e retirar a sobretaxa.
O impacto da cota chinesa no segundo semestre deve coincidir com restrições da União Europeia, previstas para entrar em vigor em 3 de setembro. A medida, anunciada em 12 de maio, excluiu o Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes e produtos de origem animal. A justificativa foi a falta de garantias sobre o controle do uso de antimicrobianos na pecuária. Caso o Brasil não atenda às exigências, ficará proibida a entrada de produtos como carne bovina, de frango, ovos, mel, peixes e animais vivos. A decisão pode impactar um mercado de quase US$ 2 bilhões.
Frainer acredita que o governo brasileiro conseguirá reverter a decisão europeia. Ele afirma que a medida pode ser derrubada com facilidade, pois não tem sustentação no longo prazo. “Como se trata de uma questão fitossanitária, ou seja, uma barreira não tarifária, ela tende a cair com mais facilidade”, disse. O Brasil se tornou o principal alvo de pressão no bloco europeu, em uma tentativa de proteger produtores rurais após a entrada em vigor do acordo entre União Europeia e Mercosul, desde 1º de maio.
