Luxação acromioclavicular: a queda que desloca a clavícula e os seis graus
Luxação acromioclavicular é classificada em seis graus, e é o grau, não o calombo, que decide a cirurgia.

Um ciclista de estrada de Cascavel caiu por cima do guidão numa descida de terra e aterrissou com o ombro direito no chão. Levantou, conferiu que o braço mexia, e só no dia seguinte reparou num calombo na parte alta do ombro, onde a clavícula parecia ter subido. Era uma luxação acromioclavicular, a lesão de ombro mais típica de quem cai de bicicleta, moto ou cavalo, e uma das que mais geram dúvida sobre operar ou não. Um ortopedista de ombro classifica a lesão pelo grau de separação entre clavícula e acrômio, e é esse grau que decide o tratamento.
A articulação acromioclavicular é a pequena junta entre a ponta da clavícula e o acrômio, segura por ligamentos que rompem quando o ombro bate direto no chão. Este texto explica como a lesão acontece, os seis graus, como identificar, o que fazer na hora, quais graus tratam com tipoia e quais pedem cirurgia, e como é a volta ao esporte.
O que é a luxação acromioclavicular
A clavícula se prende ao acrômio por uma cápsula e pelos ligamentos acromioclaviculares, e se prende ao coracoide, um osso da escápula logo abaixo, pelos ligamentos coracoclaviculares. Quando o ombro recebe um impacto direto de cima para baixo, a escápula é empurrada para baixo e a clavícula fica no lugar, e os ligamentos se rompem em sequência.
O resultado dessa ruptura é a luxação acromioclavicular: a clavícula perde a ancoragem e sobe em relação ao acrômio, formando o degrau visível na parte alta do ombro. Quanto mais ligamentos rompem, maior o degrau.
Ela é diferente da luxação do ombro propriamente dita, em que a cabeça do úmero sai da cavidade da escápula; aqui a articulação principal está no lugar.
Os seis graus e o tratamento de cada um
A classificação de Rockwood, usada em todo o mundo, separa a lesão em seis tipos conforme os ligamentos rompidos e a direção do deslocamento.
| Grau | O que rompeu e o que se vê | Tratamento habitual |
|---|---|---|
| I | Entorse dos ligamentos acromioclaviculares, sem degrau | Tipoia por dias, gelo, retorno em até duas semanas |
| II | Ruptura acromioclavicular, coracoclaviculares íntegros, degrau discreto | Tipoia por até duas semanas e fisioterapia |
| III | Todos os ligamentos rompidos, clavícula sobe até a altura do acrômio | Conservador na maioria; cirurgia em arremessadores e trabalho braçal |
| IV | Clavícula desloca para trás, atravessando o trapézio | Cirurgia |
| V | Deslocamento grande para cima, com descolamento do músculo | Cirurgia |
| VI | Clavícula desloca para baixo, sob o coracoide, raríssimo | Cirurgia |
Os graus mais leves somam a maioria dos casos; o grau III é o mais discutido, e do quarto ao sexto são incomuns e cirúrgicos.
O que fazer na hora da queda
A conduta nos primeiros minutos é simples e evita agravar a lesão.
- Apoiar o braço junto ao corpo com o cotovelo dobrado, usando tipoia improvisada de camiseta ou lenço.
- Aplicar gelo envolto em pano sobre a região por 15 a 20 minutos.
- Não tentar empurrar a clavícula de volta para baixo, o que não funciona e dói.
- Observar se há deformidade grande, pele tensa sobre a clavícula ou formigamento no braço, que indicam graus altos.
- Procurar avaliação para radiografia no mesmo dia ou no seguinte.
- Levar o capacete e descrever a queda, porque o mecanismo ajuda na classificação.
Como o diagnóstico é confirmado
O exame físico mostra dor e inchaço sobre a articulação, o degrau entre os dois ossos e o sinal da tecla de piano, em que a clavícula afunda ao ser pressionada e volta a subir. Cruzar o braço na frente do peito costuma doer.
A radiografia com incidência específica para a articulação, às vezes com o paciente segurando peso, mede o afastamento entre clavícula e coracoide e classifica o grau. A comparação com o lado oposto ajuda.
Já a ressonância entra só quando há suspeita de lesão associada do manguito ou do labrum, mais comum em pessoas acima de 40 anos.
Tratamento conservador: para os graus baixos e a maioria dos III
A tipoia serve para conforto e sai assim que a dor permitir, em geral em até duas semanas. O movimento começa cedo, com exercícios pendulares e de amplitude, e o fortalecimento do manguito e da escápula entra quando a dor aguda passa.
No grau III, o degrau permanece como marca estética permanente, mas a maioria das pessoas recupera função completa em seis a doze semanas. Estudos que compararam cirurgia e tratamento conservador nesse grau não mostraram vantagem funcional consistente para a cirurgia, com retorno mais rápido no grupo sem operação.
Dor persistente na articulação após meses, por artrose ou instabilidade, pode ser tratada com infiltração ou, raramente, com cirurgia tardia.
Cirurgia: quando e como
A cirurgia é indicada do quarto grau em diante e no terceiro em arremessadores, trabalhadores braçais, pessoas com deformidade que incomoda muito e casos em que a dor persiste. O objetivo é devolver a clavícula à posição e reconstruir os ligamentos coracoclaviculares.
As técnicas atuais usam sistemas de botões e fios de alta resistência, muitas vezes por artroscopia, e reconstrução com enxerto de tendão nos casos crônicos. Placas com gancho são usadas menos hoje, por exigir retirada e por desgastar o acrômio.
A recuperação envolve tipoia por quatro a seis semanas, fisioterapia e retorno ao esporte de contato entre quatro e seis meses.
Voltar à bicicleta e ao esporte
Nos dois primeiros graus, pedalar volta em duas a quatro semanas, quando apoiar o peso no guidão não dói. No terceiro grau sem cirurgia, entre quatro e oito semanas, com fortalecimento antes.
Modalidades de contato e arremesso exigem força e amplitude completas e ausência de dor no cruzamento do braço, o que leva mais tempo. Após cirurgia, a liberação vem do cirurgião.
Proteção do ombro, como ombreiras em modalidades de colisão, e técnica de queda reduzem a chance de nova lesão, mas o degrau não volta ao normal sem cirurgia.
Perguntas frequentes sobre luxação acromioclavicular
O calombo no ombro vai sumir?
Nos graus leves, o inchaço some e não fica deformidade. No grau III tratado sem cirurgia, o degrau permanece como marca estética, sem prejuízo funcional na maioria.
Luxação acromioclavicular é grave?
Na maioria dos casos, não. Graus I a III recuperam bem com tratamento conservador. Do quarto ao sexto são raros e exigem cirurgia.
Quanto tempo de tipoia?
De poucos dias a quinze dias nos graus I a III, apenas para conforto. Após cirurgia, de quatro a seis semanas.
Preciso operar o terceiro grau?
Nem sempre. Arremessadores, trabalhadores braçais e quem não aceita a deformidade costumam optar pela cirurgia; a maioria recupera função sem operar.
Posso pedalar com a lesão?
Não nas primeiras semanas, porque apoiar no guidão carrega a articulação. A volta é progressiva, quando a dor ao apoiar o peso desaparece.
Fica sequela?
Artrose da articulação e dor ao cruzar o membro podem aparecer anos depois, principalmente em graus mais altos. Fortalecer o ombro reduz a chance.
Resumo
A luxação acromioclavicular é a separação entre os dois ossos por queda direta sobre o ombro, típica de bicicleta, moto e esportes de contato, e é classificada em seis graus conforme os ligamentos rompidos. Os dois primeiros graus tratam com tipoia curta e fisioterapia; o grau III, o mais discutido, é conservador na maioria e cirúrgico em atletas de arremesso e trabalho braçal; graus IV a VI exigem cirurgia. O degrau do terceiro grau permanece sem operação, mas a função volta em seis a doze semanas, e a volta ao esporte depende de força e amplitude completas.

