10/05/2026
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Ponte entra na reta final, mas falta governança para operar a Rota Bioceânica

Apesar do avanço das obras de infraestrutura da Rota Bioceânica, entraves institucionais e regulatórios podem retardar a efetiva operação logística do Corredor Rodoviário de Capricórnio. A análise é do secretário da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação) de Mato Grosso do Sul, Artur Falcette, em entrevista ao Campo Grande News.

Mais do que concluir pontes, rodovias e acessos, os quatro países envolvidos — Brasil, Paraguai, Argentina e Chile — terão de construir um modelo integrado de fiscalização, alfândega e segurança jurídica para garantir previsibilidade ao fluxo internacional de cargas. “A previsão para a conclusão da ponte segue para o segundo semestre de 2026. No entanto, ainda há um longo caminho até que possamos aproveitar plenamente os benefícios da rota. Existem questões alfandegárias e legislação para serem resolvidas entre os países envolvidos”, disse Falcette.

Baixa influência do setor privado

Outro ponto crítico é a limitada participação do setor privado nas decisões estratégicas do corredor. Embora empresas e operadores logísticos sejam os principais potenciais usuários da futura rota, o segmento ainda tem pouca influência na formulação das diretrizes operacionais e regulatórias do projeto. “Exportadores, importadores, transportadores, despachantes aduaneiros, agentes de carga, operadores logísticos e outros atores econômicos enfrentam diretamente os desafios operacionais do comércio exterior. Porém, eles não estão sendo incluídos de forma formal na definição de obras, no desenho de ACIs (Áreas de Controle Integrado) nem no estabelecimento de procedimentos de controle”, aponta um estudo coordenado pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).

Com mais de 2,4 mil quilômetros, a Rota Bioceânica conecta os oceanos Atlântico e Pacífico. O ponto mais avançado é a Ponte Internacional da Rota Bioceânica, com execução próxima de 90%. O trecho estaiado sobre o Rio Paraguai tem 1.294 metros e liga Porto Murtinho (MS) a Carmelo Peralta, no Paraguai. A expectativa é que a rota reduza em até 30% os custos logísticos e em até 15 dias o tempo de transporte em relação a rotas como o Canal do Panamá.

Gargalos nas fronteiras

O estudo aponta gargalos nas ACIs. Hoje, apenas as passagens entre Argentina e Chile estão habilitadas para transporte internacional de cargas, mas ainda com necessidade de melhoria. As passagens entre Brasil e Paraguai e entre Paraguai e Argentina ainda não estão operacionais. O trecho alfandegário entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta tem aprovada a construção de uma ACI, mas o projeto ainda não abriu processo formal de consulta técnica ao setor privado. O Campo Grande News apurou que faltam recursos para concluir a ACI em Porto Murtinho.

Sem entrar no mérito da construção da ACI, o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) reiterou a responsabilidade pela construção do acesso à ponte na BR-267/MS. Com investimento de R$ 472 milhões, a obra prevê 13,1 quilômetros de rodovia. O cronograma pode criar descompasso com a inauguração da ponte, prevista para o segundo semestre de 2026.

Governança como desafio central

O estudo aponta a necessidade de uma governança técnico-operacional própria para o corredor logístico, com instâncias permanentes de articulação intergovernamental e sistemas de informação compartilhados. O Chile, embora associado à Rota, não integra o Mercosul, o que torna o ambiente institucional mais complexo. O documento consolida debates com 469 representantes do setor privado, 282 empresas e 43 associações empresariais, além de 161 representantes de 65 órgãos públicos. Foram identificadas 231 oportunidades de melhoria e elaboradas 264 propostas consensuais.

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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