Em visita ao Brasil pela décima vez, a escritora e ativista Angela Davis, uma das principais referências do feminismo mundial, afirmou que a supremacia branca nos Estados Unidos não está em ascensão. Segundo ela, os grupos extremistas apenas “saíram do armário”. Davis é um dos nomes mais aguardados da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde participa de um debate no sábado (25).
Em entrevista no Rio de Janeiro, Davis comentou a tentativa de equiparar o antissemitismo à solidariedade ao povo palestino. Para ela, essa é uma tática usada por conservadores. A ativista também disse que os progressistas ainda não encontraram uma forma eficiente de se organizar politicamente.
Perguntada sobre como se sente ao ser tratada como um ícone, Davis foi direta: “Detesto isso.” A ativista é conhecida por sua defesa do fim do sistema carcerário, posição que defendeu com veemência na conversa.
Davis argumentou que a abolição das prisões não minimiza o sofrimento das vítimas de crimes violentos. Ela explicou que a justiça transformativa busca atender às necessidades de quem foi vitimizado e também combater as condições sociais que levam à violência. “O único modo de fazer isso é atendendo às necessidades dos seres humanos, encorajando a imaginação por meio da educação”, disse.
Sobre o uso de tecnologias como reconhecimento facial e algoritmos preditivos na segurança pública, a ativista foi crítica. “Acho perigoso. A base é o racismo estrutural. O policiamento preditivo é projetado para manter as estruturas sociais e econômicas como estão”, afirmou.
Ela também comentou o fracasso do movimento “Defund the Police” em ganhar apoio público duradouro. Para Davis, a trajetória do movimento foi interrompida por intervenções conservadoras, mas as bases lançadas continuam vivas. Ela citou exemplos de resistência em Minnesota e Chicago como prova de que o desejo por uma democracia real persiste.
Questionada sobre o retorno de Donald Trump à presidência, Davis disse que a vitória dele não representa a maioria do país. “A razão pela qual ele voltou foi porque muitas pessoas deixaram de votar. Se esquecermos isso, assumimos que esse tipo de conservadorismo e a supremacia branca estão em ascensão. E não acho que estejam”, afirmou.
A ativista também defendeu a causa palestina como parte de uma luta global. Ela afirmou que pesquisas nos EUA indicam que a maioria da população se inclina mais para a solidariedade palestina do que para o Estado de Israel. “É lamentável ter sido necessária a destruição genocida de Gaza para que essa nova sensibilidade política emergisse”, declarou.
Davis participa da Flip ao lado de Gina Dent, acadêmica que é sua companheira de vida e de projetos. Juntas, elas escrevem um livro sobre jazz. O evento acontece no Sesc Caborê, em Paraty, com capacidade para 700 pessoas.
