Morcegos insetívoros passam a noite inteira se alimentando de insetos e podem consumir quase o dobro do próprio peso em uma única noite. Entre esses insetos, estão pragas agrícolas e vetores de doenças. Esse trabalho noturno reduz a pressão das pragas e diminui a necessidade de uso de agrotóxicos pelos produtores.
Um estudo publicado em 2024 no periódico Science mostrou o que acontece quando esses animais desaparecem. A síndrome do nariz branco, infecção fúngica que atinge morcegos, causou uma queda drástica na população desses animais. Anos depois, o uso de agrotóxicos aumentou em 31% e a mortalidade infantil subiu 8%. A relação foi identificada pelos pesquisadores: sem os morcegos para controlar pragas, mais veneno foi usado e os efeitos chegaram à saúde humana.
Esse caso ilustra o conceito de serviços ecossistêmicos. Trata-se dos benefícios que recebemos da natureza sem que haja interferência humana. Na ecologia, existem funções ecológicas, como um morcego comer insetos ou uma abelha polinizar flores. Quando essas funções nos trazem vantagens, como alimento ou controle de pragas, elas se tornam serviços ecossistêmicos.
O morcego não está prestando um serviço. Ele apenas age conforme sua natureza. Mas para o ser humano, o resultado é grátis e útil: menos pragas, menos agrotóxico, alimento mais seguro. O mesmo vale para o solo que sustenta plantações, a vegetação que retém água e evita enchentes, e a dispersão de sementes que mantém paisagens naturais.
No entanto, nem toda interação com a natureza é um serviço ecossistêmico. Quando se usa insumos para forçar a produção, está se explorando a natureza, não permitindo que ela funcione por conta própria. O conceito original de serviço ecossistêmico se refere ao que surge do funcionamento natural, sem redesenho humano.
A professora Ludmilla Moura de Souza Aguiar, do Departamento de Zoologia do Instituto de Ciências Biológicas (IB), alerta para o risco de só perceber esses serviços quando eles param. Enchentes, calor excessivo, piora na saúde ou aumento da mortalidade infantil podem ser sinais de que algo foi perdido. A natureza trabalha em silêncio, e reconhecer isso a tempo pode ser questão de sobrevivência.
